Aniversário (3)
Escuto meu nome sendo convocado do outro lado da sala de espera. Demoro para me levantar e responder à chamada. Uma forma de procrastinar o desafio. Li no questionário preenchido há pouco que o procedimento é indolor. Mas não é da dor que tenho medo. Sou recepcionada com uma série de orientações, as quais tomo ao pé da letra. Visto um avental medíocre e adentro a uma sala fria e branca. A máquina ao centro é monstruosa. Me dá arrepios. Precisava fazer o exame justo nas vésperas do seu aniversário, menina? Não basta toda ansiedade que lhe é inerente no mês de setembro? Pensei que o aniversário fosse me dar confiança. Que nada! A bem da verdade é que terei de ir atrás dessa coragem no além, afinal, sou perseguida dia após dia pelo medo do desconforto.
A enfermeira me alcança imensos fones de ouvido questionando-me: "Prefere escutar uma música durante o exame ou o silêncio?". Escolho o silêncio, pois certamente o cardápio musical do hospital não dispõe de agronejo. Vou me distrair com meus pensamentos. Talvez seja capaz de recuperar um sentimento ingênuo, sem fobias e sem receio. Sou acomodada na maca e, repentinamente, o exame se inicia. O que é isso? Ninguém me avisou que já íamos começar. Nem para se despedirem. O que custa uma voz doce me sussurrar ao ouvido? Um carinho na testa? Ora, animada para o aniversário, resolvo me submeter à ressonância justamente agora? Faz um mês que o médico solicitou o pedido. Logo eu que gosto de evitar dor a qualquer custo. Tá bem, eu entendi! Não é uma questão de dor, o questionário não estava de todo errado. É fobia. É desconforto. É claustrofóbico! Tá vendo? O questionário foi omisso. Devo reportar.
Tento pensar em um lugar paradisíaco. Talvez uma praia me relaxe. Até parece! Não sou de relaxar. Quem sabe concentrar-me nos meus parabéns funcione? Pelo menos é lúdico. Mas o barulho do aparelho é ensurdecedor. Por isso a música. E os fones. Acho que a enfermeira não foi clara. Quanto tempo já se passou? Poderiam ao menos emitir avisos acerca da passagem do tempo. Não posso falar nem me mexer. É cruel! Povo vai passear em Marte, mas a Starlink é incapaz de fabricar uma máquina de ressonância ampla, silenciosa e confortável? E pensar que, quando perguntei a meu marido, ele disse que foi tranquilo, que dormiu. Certamente sonhou com a vitória da Libertadores. É doido, ele. Mas claro que não me contentei com esse relato. Na sequência, discorri ao telefone sobre o exame com minha mãe. Esta sim sabe o que é drama. Escolheu a psicologia por afinidade. Deveria mesmo ter sido atriz. Uma questão de convocação. Disse ela que é horrível, me contou que uma vez apertou o botão de emergência e gritou a plenos pulmões "me tirem daqui!". Qualquer coisa, seguirei o exemplo de minha mãe.
Uma voz ecoa no alto-falante: "Laura, por favor, respire mais tranquila para não prejudicar o exame. As imagens podem ficar tremidas". Achei ousado. Como fazer esse pedido enquanto estou nessas condições? Que desnaturada! Se podem me passar uma instrução, também podem muito bem me avisar sobre as horas. Castigo, maldição, que seja! Ninguém me tira da cabeça que é impossível relaxar neste cenário. Tenho quase 32 anos, sei das coisas. Penso na programação de meu aniversário. Isso me dá ânimo! E de repente, a maca começa a se mover. A enfermeira parada ao meu lado. Acabou? Mas assim tão de repente? Nem para me parabenizarem e emitirem um som de vitória? Sou aos poucos liberada dos objetos metálicos que me prendiam e comemoro, sem qualquer constrangimento. Levanto os braços - doloridos e dormentes - e bato palmas no ar. A enfermeira me olha com certo descontentamento e enrubesce de leve. Deve estar com vergonha do meu show. Eu nem me abalo, afinal, setembro me traz sorte. E empolgação! "É que faltam poucos dias para meu aniversário", encerro minha comemoração com essa breve explicação. A enfermeira sorri. Viu? Sabia que isso também ia animá-la! Impressionante como às vésperas de meu aniversário já me sinto até mais madura: afinal de contas, eu até que me familiarizei com o desconforto.
A próxima crônica, caros leitores, enfim já será meu aniversário!




Eu também fiz uma ressonância, recentemente, e foi o pior exame da minha vida kkkkk hoje eu tô rindo dessa história! Vamos trocar figurinhas depois... e by the way, happy birthday! <3